Da imaginação de um menino ao livro: mãe e filho transformam a neurodivergência em literatura em Marília

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da redação do Portal GPN com Revista Notícia ao Ponto, Grupo Portal de Notícias e Nossa TV

“Come-recreio” nasceu das ideias de Joaquim Masson e se tornou uma experiência de criação compartilhada, valorizando o tempo, a criatividade e a singularidade da infância

MARÍLIA — Uma história que começou dentro de casa, a partir da imaginação de uma criança, ganhou as páginas de um livro e agora pretende alcançar leitores muito além de Marília.

Esse é o percurso de “Come-recreio”, obra criada a partir das ideias de Joaquim Masson, então com nove anos, e desenvolvida em coautoria com sua mãe, a escritora e advogada Angélica Masson. O projeto foi selecionado por edital da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) e será publicado pelo selo Tagarela, da Editora Polifonia.

A origem da história é curiosa. Uma professora havia criado a figura de um “monstrinho” que encurtaria o recreio das crianças que não se comportassem. Para Joaquim, porém, a ideia ganhou outra dimensão. Ele passou a construir o personagem, dando-lhe nome, características, história e personalidade.

O que poderia ser apenas uma brincadeira infantil acabou se transformando em uma reflexão sobre a maneira como a sociedade contemporânea trata o tempo das crianças.

Uma mãe que aprendeu a escutar

Para Angélica, escrever o livro ao lado do filho foi, antes de tudo, um exercício de escuta e respeito ao ritmo de Joaquim.

Ela conta que o menino desenvolveu um interesse intenso pelo personagem e que precisou registrar suas ideias para preservar aquela criação. Quando o projeto avançou, porém, os interesses de Joaquim já haviam mudado, exigindo da mãe sensibilidade para retomar aquela história e reconstruir o caminho criativo.

A experiência também levou Angélica a questionar a tendência de interpretar dificuldades específicas das crianças como limitações definitivas.

Para ela, um ritmo diferente não deve ser confundido com incapacidade. Quando existe espaço para que a criança desenvolva suas potencialidades, novas possibilidades podem surgir.

Neurodivergência como possibilidade

Um dos aspectos mais importantes da experiência é justamente romper com estereótipos sobre o autismo e outras formas de neurodivergência.

Angélica defende que crianças neurodivergentes não devem ser apresentadas apenas como “gênios” com talentos extraordinários, nem como pessoas incapazes e dependentes. O mais importante, segundo ela, é reconhecer seus direitos, respeitar suas particularidades e oferecer condições para que desenvolvam suas capacidades.

É nesse contexto que surge a ideia de que “a neurodivergência é também terreno fértil” para a arte e a criatividade — não porque toda pessoa neurodivergente necessariamente possua habilidades excepcionais, mas porque criatividade e expressão fazem parte da experiência humana.

Uma crítica à infância cronometrada

“Come-recreio” também apresenta uma crítica à sociedade que transforma cada vez mais o tempo em produtividade.

Para Angélica, até mesmo o lazer infantil passou a ser frequentemente organizado, medido e otimizado. O livro propõe justamente o contrário: recuperar o direito da criança de brincar, imaginar, experimentar e simplesmente viver o próprio tempo.

As ilustrações de Paula Mello, produzidas com a técnica de colagem, complementam essa proposta ao criar novas camadas de interpretação para a narrativa.

De Marília para a Flip

O projeto ganhou força após a seleção no edital da Política Nacional Aldir Blanc. A partir daí, uma história inicialmente construída no ambiente familiar passou a ganhar espaço no circuito literário.

O lançamento acontece na biblioteca de Marília, com eventos também em livrarias de São Paulo. A obra foi lançada na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2026.

Mais do que publicar um livro, Angélica e Joaquim transformaram uma experiência familiar em uma oportunidade de discutir infância, criatividade, leitura e respeito às diferentes formas de perceber e interpretar o mundo.

Uma história sobre tempo, afeto e presença

Talvez a principal mensagem de “Come-recreio” esteja justamente naquilo que acontece antes e depois da leitura: o encontro entre pais e filhos.

Angélica defende que a leitura compartilhada continua importante mesmo quando a criança já consegue ler sozinha. Para ela, o momento de dividir uma história cria vínculos e transforma a leitura em experiência afetiva.

Em uma sociedade cada vez mais acelerada, a história de Joaquim e Angélica propõe uma pausa.

Uma pausa para ouvir.

Para imaginar.

Para brincar.

Para respeitar o tempo de cada criança.

E, sobretudo, para compreender que aquilo que muitas vezes é visto apenas como diferença também pode abrir caminhos inesperados para a criatividade, a literatura e a expressão.

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